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Fertilidade: o que gostava de ter sabido aos 20 anos

Crescemos a ouvir muito sobre como evitar uma gravidez, mas muito pouco sobre como cuidar da nossa fertilidade ao longo da vida. E essa informação faz a diferença. Não para criar ansiedade ou pressão, mas para permitir decisões mais informadas. A fertilidade é ainda um tema que raramente surge nas consultas de rotina ou conversas do dia a dia.

Na mulher, não há uma queda súbita aos 35 anos. A realidade é mais gradual e essa queda, entre vários fatores, é influenciada também por fatores potencialmente modificáveis. 

Existe uma diminuição natural da reserva ovárica e da qualidade dos óvulos ao longo do tempo, processo que começa antes dos 35 anos e acelera, progressivamente, com a idade. Não é algo linear nem igual para todas as mulheres, mas com a idade o tempo até engravidar tende a prolongar-se.

Hoje em dia, e graças aos avanços das técnicas de procriação medicamente assistidas, temos a possibilidade de preservar o potencial reprodutivo de uma mulher, através da criopreservação de ovócitos, em mulheres que preferem ou têm de adiar a sua maternidade. 

Não deve ser, de todo, encarada como uma garantia de fertilidade, mas como um investimento na mesma. Assume um papel ainda mais importante nas mulheres com doença oncológica ou outro tipo de doença que envolva tratamentos com impacto na fertilidade, ou mesmo quando a própria doença afeta a reserva ovárica, como é o caso da endometriose. 

Embora menos falado, nos homens a fertilidade não permanece completamente inalterada. Apesar de a redução ser geralmente mais lenta, à idade masculina podem associar-se alterações na qualidade do esperma e um aumento do tempo necessário para conseguir uma gravidez viável.

Mas fertilidade não é apenas idade. Existem diversos fatores que a podem influenciar:

  • Tabagismo;
  • Obesidade ou excesso de peso;
  • Sedentarismo;
  • Algumas infeções sexualmente transmissíveis;
  • Endometriose;
  • Síndrome dos ovários poliquísticos;
  • Alterações hormonais;
  • Poluição ambiental e exposição a determinados químicos;
  • Consumo excessivo de álcool.

Nem todos estes fatores são modificáveis, mas muitos podem ser identificados ou tratados. Algumas doenças associadas à infertilidade, como a endometriose, podem permanecer durante anos sem diagnóstico. Dores menstruais severas, irregularidades menstruais, dor nas relações sexuais são alguns dos sinais e, se presentes, devem ser avaliados para o correto diagnóstico e tratamento.

Cuidar da fertilidade é, na realidade, cuidar da saúde global. É conhecer o corpo, procurar ajuda quando existem sintomas persistentes, manter hábitos saudáveis e compreender que algumas das decisões tomadas hoje podem ter impacto no futuro.

Cuidar da fertilidade não significa ter de planear uma gravidez imediatamente. A informação não serve para criar medo, serve para criar liberdade. Porque conhecer a realidade permite escolher melhor.

E talvez aquilo que muitos gostariam de ter sabido aos 20 anos fosse, simplesmente, isto: nem sempre temos de decidir já, mas é importante compreender hoje, aquilo que pode fazer a diferença amanhã.

Se tem dúvidas sobre a sua fertilidade, sintomas que a preocupam ou simplesmente gostaria de compreender melhor o seu potencial reprodutivo, fale com o seu médico.

Artigo desenvolvido pelo Dr. Carlos Macedo, (OM 57871), especialista em Ginecologia e Obstetrícia.

4 de Junho de 2026